“A gente viu nos últimos dois anos o cacau se descolar completamente da média histórica de preços. Passamos de um patamar de US$ 2 mil a US$ 3 mil nas últimas duas décadas para cotações acima dos US$ 10 mil por tonelada em 2024. Isso não acontecia há mais de 50 anos”, explica Rafael Borges, analista da StoneX. Ele lembra que a máxima histórica foi registrada em dezembro de 2024, quando o preço chegou a US$ 12.565 por tonelada.
A valorização foi impulsionada pelo desequilíbrio entre oferta e demanda. Na safra 2023/24, o déficit global foi estimado em cerca de 460 mil toneladas, com forte impacto das condições climáticas no oeste africano, região que responde por mais de 70% da produção mundial.
Contudo, em 2025, alguns sinais começaram a mudar. “O câmbio se valorizou um pouco, diminuindo o ganho cambial para o produtor brasileiro. Além disso, os diferenciais em relação à Bolsa também caíram, com a entrada da safra nacional e uma certa normalização dos estoques internos”, pontua Borges.
Outro fator que pressionou as cotações foi a divulgação dos dados trimestrais de moagem — indicador que revela o comportamento da demanda global. No segundo trimestre deste ano, a moagem caiu mais de 16% na Ásia e 7% na Europa, surpreendendo negativamente o mercado. “Esses números indicam que a demanda está sentindo o peso dos preços historicamente altos”, completa o analista.
Efeitos no Brasil e no Espírito Santo
Embora o Espírito Santo represente cerca de 10% da produção nacional de cacau, os preços pagos ao produtor seguem fortemente atrelados ao mercado internacional. “O Brasil não tem peso suficiente para influenciar a cotação global. Então, o que define o valor aqui é o comportamento da Bolsa de Nova York, o câmbio, a oferta interna e os diferenciais”, explica Borges.
A boa notícia é que, mesmo com a queda, os preços atuais ainda são considerados atrativos quando comparados à média histórica. Segundo a StoneX, a tendência é de que os valores continuem sustentando o interesse por investimentos no campo, ainda que de forma mais moderada do que nos meses de pico.
De fato, a produção brasileira caminha para uma recuperação. A estimativa da StoneX é de que a safra 2025/26 alcance 215 mil toneladas, um aumento de 10,2% em relação ao ciclo anterior. Essa alta é impulsionada, principalmente, pelos investimentos em lavouras, maior uso de insumos e melhores condições climáticas em relação a 2023.
No cenário internacional, a projeção também é de superávit. A primeira estimativa da safra global 2025/26 aponta para um excedente de 239 mil toneladas, favorecido pela recuperação produtiva em países como Equador, Indonésia e Peru, e pelo avanço tímido, mas contínuo, na África Ocidental, mesmo com os impactos da doença viral CSSVD.
Expectativas para os próximos meses
A tendência para o segundo semestre de 2025 é de um mercado ainda volátil, com os preços sujeitos a revisões a depender do comportamento da demanda e das condições climáticas nas principais regiões produtoras. “Há incertezas no mercado quanto ao equilíbrio entre oferta e consumo, mas a expectativa é de que a moagem global volte a crescer em 2025/26, após dois anos de retração”, avalia Borges.
No Espírito Santo, os produtores que investiram pesado na melhoria das lavouras durante o período de preços altos agora devem ajustar suas expectativas, e manter atenção ao mercado internacional. “Ainda que tenhamos uma redução nos valores em reais, o cenário global segue interessante para o setor. O importante agora é manter o foco em produtividade e qualidade”, finaliza o analista.
(Fonte: Folha Vitória)