
Não é de hoje que os cientistas brasileiros chamam atenção para a necessidade de investir na identificação, rastreamento, monitoramento e isolamento das infecções da covid-19 como medida crucial para interromper a circulação da doença. Apesar de ter sequenciado em tempo recorde, em apenas 48 horas, em fevereiro do ano passado, o primeiro genoma do coronavírus que estava circulando no país, o Brasil sofre com uma escassez na vigilância de novos genomas. Pesquisadores apontam que há estrutura e pessoal capacitado, mas falta recurso. A alta do dólar também é apontada como um problema, visto que os reagentes necessários são todos importados.
Na última terça-feira, o general disse que o Brasil enviou amostra para ser estudada em Oxford. “Mandamos todo o material coletado para a Inglaterra para que a gente tenha uma posição exata sobre o grau de contaminação e agressividade dessa nova cepa”, afirmou, ponderando que os estudos também estavam sendo conduzidos no Brasil.
Pouco sequenciamento
De acordo com a plataforma Gisaid, na qual cientistas do mundo todo compartilham informações sobre o vírus, das 448,4 mil sequências publicadas, até 29 de janeiro, 191,6 mil (42,7%) têm origem no Reino Unido, 98 mil na América do Norte. Do outro lado, o Brasil sequenciou apenas 2.403 (0,5% do total). A própria linhagem P.1 foi evidenciada após um alerta feito inicialmente por pesquisadores japoneses, que identificaram a variante em quatro viajantes vindos do Amazonas para o país.
Desde então, a mutação também já foi identificada no Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e Itália. Apesar dos indicativos de alta transmissão da P.1 ocorrendo no Amazonas, somente na última terça-feira houve a confirmação de registro da variante em outra unidade federativa brasileira. O Instituto Adolfo Lutz identificou a nova variante em três pacientes de São Paulo.
Ester admite que houve uma redução nas ações de sequenciamento no último ano. “Acho que, realmente, o número de sequências foi menor no segundo semestre, e são várias questões que afetaram os vários grupos. A ciência precisa de apoio contínuo”, afirmou.
Para a pesquisadora do Laboratório de Bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) Ana Tereza Vasconcelos, o país precisava ter sequenciado mais. Porém, ela explica que o sequenciamento é uma técnica cara. “Para se fazer um rastreamento e identificar as mutações, você precisa sequenciar. É uma técnica cara. Pela dimensão e pela conjuntura do Brasil, não teria condições de fazer um estudo desse tamanho”, disse.
A geneticista ressalta que os pesquisadores possuem boas estrutura para fazer a vigilância genômica no país, com laboratórios bem equipados e pessoal. O problema, entretanto, é financeiro. “O nosso maior problema são os consumíveis, como os reagentes, e bolsas para alunos de pós-graduação, que ajudam muito nessa tarefa”, explicou.
Transmissão
A convicção das próprias autoridades de saúde é de que a linhagem P.1 se espalhou por todo o país. “Acreditamos que já há variantes no Brasil inteiro, diante das características da atual curva de contágio. Por isso, temos que vacinar com a maior velocidade possível, mantendo as medidas de distanciamento e os cuidados com higienização”, destacou o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, Carlos Lula.
Ester Sabino afirma que, de fato, a mutação é mais transmissível, ainda que, por hora, não haja informações para saber o quanto. Ela disse, ainda, que é provável que esta nova cepa tenha começado a expandir em dezembro, visto que dados anteriores não tinham detectado a sua presença.
Ao sequenciar 250 genomas do Amazonas, a Fiocruz identificou a linhagem P.1 em 51% das amostras de dezembro e, reforçando o alto potencial transmissor, foi identificada em 91% das amostras na primeira quinzena de janeiro. Um levantamento paralelo, feito pelo Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), que reúne pesquisadores brasileiros e britânicos, chegou a resultados parecidos, identificando a nova linhagem em 85,4% das amostras analisadas.














