O ano de 2020 é histórico. Na guerra mundial contra o inimigo comum, o novo coronavírus, mais de 1,8 milhão de vidas foram perdidas. As inúmeras batalhas silenciosas, travadas dentro dos hospitais lotados, potencializaram a necessidade de apostar num mecanismo de defesa coletivo, única maneira de derrotar este mal que assola o planeta. Nesse contexto, a vacina surge como resposta e renova as esperanças para um novo ano, pródigo em desafios.
Ao recapitular a trajetória da pandemia, o diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, o médico Gustavo Fernandes, relembra que estava em uma conferência nos Estados Unidos quando debateu com colegas o início das mobilizações para conter um agente infeccioso novo, na China. “Era meados de janeiro, e discutíamos o fato de ter sido levantado um hospital inteiro, em poucos dias, para tratar chineses acometidos por essa doença desconhecida”, afirma. Dois meses depois, o mundo já estava tomado pelo novo coronavírus.
De forma desigual — ao considerar a capacidade de controle da disseminação do vírus em cada local —, o Sars-cov-2 fez vítimas em todo o planeta. Cerca de 5 mil pessoas morreram na China, número que, semanalmente, é registrado nos Estados Unidos, no Brasil e na Rússia, os três países com óbitos até o momento.
No Brasil, a divergência de discursos sobre a covid-19 e as disputas políticas foram marcantes ao longo do ano. “O prejuízo veio de maneira intensa e evidente. Durante o ano, gastamos boa parte das energias, que deveriam ser centralizadas com objetivo de vencer o vírus, focalizando na tentativa de evitar uma guerra. O Sistema Único de Saúde (SUS) é tripartite entre União, estados e municípios. Todas as vezes que essa harmonia, sinergia entre os entes da Federação se rompe, o SUS também se rompe”, ressalta o presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass), Carlos Eduardo de Oliveira Lula. “O SUS é o maior programa de direitos humanos da história do país. É a estratégia que mais permitiu que pessoas com qualquer tipo de renda e, muitas vezes, invisibilizadas, tivessem direito a um tratamento seguro, digno e adequado. O sistema tem muitos problemas a serem corrigidos, muitas falhas, mas é essencial para a vida dos brasileiros e continuará demonstrando sua força no combate à pandemia”, frisa.
Ministério Público de diversos estados também provocaram tribunais na intenção de acelerar a tomada de decisões mais rígidas por parte dos gestores. Até mesmo a vacinação foi pauta do Judiciário. “A ciência e a mídia, em sua grande maioria, fazem um trabalho muito bem-feito, só que a sociedade está desorientada, porque os poderes políticos não conversam”, afirma Gustavo Cabral, imunologista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Por mais que a gente tenha a vacina, essa desunião pode fazer com que qualquer estratégia de vacinação vá por água abaixo. Temos de ter essa união dos Poderes para imaginarmos que, em 2021, conseguiremos controlar a doença.”
Compromisso conjunto
Apesar de indicar o início de uma nova vida para todos, a vacina contra o novo coronavírus não vai permitir, num primeiro momento, o relaxamento de todas as medidas preventivas incorporadas na pandemia, como o uso de máscaras. Isso ocorre por diversos motivos, como a impossibilidade de uma vacinação em massa, a princípio. Por isso, especialistas indicam que 2021 será crucial para o controle da crise sanitária e o descrevem como o ano da responsabilidade.
Gustavo Cabral, imunologista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), explica que, além da improbabilidade de vacinar 90% da população, ou pelo menos dois terços — número que é visto como o necessário para o controle da pandemia —, a vacina protegerá as pessoas da doença, mas não necessariamente porá fim ao vírus.
Isso pode acontecer porque, para desenvolver a doença, o vírus entra no corpo, infecta as células, prolifera e gera uma carga viral muito alta. Com a vacina, o sistema imunológico tem uma preparação prévia para lutar contra a proliferação do vírus, para não adoecer. No entanto, em alguns casos, mesmo com uma propagação controlada do vírus por causa do sistema imune fortalecido, ainda há uma carga viral, e o vírus consegue ser transmitido por aquela pessoa.
“Enquanto a gente não consegue ter uma vacinação de, pelo menos, dois terços da população, que é quando geramos a imunização de rebanho, precisamos continuar a usar máscaras, porque podemos ser um transmissor”, diz Cabral. Nesse cenário, é preciso responsabilidade coletiva.
“A vida é feita de alguns atos de amor. O fato de a gente se privar de um abraço é priorizar a vida, e nós só chegamos tão longe porque o que nos diferencia é que somos seres sociáveis, nós evoluímos cuidando um do outro. Vai ser um ano de responsabilidade, não um ano de caos e desordem, um ano de responsabilidade pela vida”, enfatiza.













